Folha de S.Paulo – Comentário: Charme da Shakespeare and Company é a bagunça – 23/02/2006
Folha de S.Paulo – Comentário: Charme da Shakespeare and Company é a bagunça – 23/02/2006
Charme da Shakespeare and Company é a bagunça
NELSON ASCHER
COLUNISTA DA FOLHA
A Shakespeare & Company de Paris que, fundada em 1951, vende principalmente livros em inglês, fica na região de St. Germain, na margem esquerda do Sena, diante da catedral de Notre-Dame, rodeada por pequenos restaurantes. Como seu vizinho que fui durante uns três anos, eu passava por ela diariamente.
A livraria já teve dias melhores e várias entre suas competidoras atuais, a Village Voice, também no Quartier Latin, ou a Galignani, na Rue de Rivoli (perto do Louvre), são melhores, mais organizadas, têm um atendimento digno do nome e estoques mais completos e/ou interessantes.
A Shakespeare, porém, tem a vantagem de ficar aberta até a meia-noite e de poder ser freqüentada até mesmo no 14 de Julho. Além disso, ela é também um sebo que merece ser visitado de quando em quando. Seu charme, para os que o apreciam, é a própria bagunça, o aperto, a confusão, sobretudo, de jovens norte-americanos se acotovelando dentro dela menos em busca de leitura que de informações e conversa em sua língua.
Que alguém se predisponha a dormir entre suas estantes (inclusive do ponto de vista de quem, como eu, tem a cama cercada de tomos ameaçadoramente exigindo leitura imediata), aponta menos para prazeres ou perversões livrescas (como aqueles ilustrados pelo caso do sinólogo Peter Kien, o protagonista de “Auto-de-Fé” de Elias Canetti, cuja experiência formativa havia sido a de passar na infância uma noite trancado dentro de uma livraria e que, adulto, orgulhava-se de ter a maior biblioteca da cidade) do que para o preço extorsivo de acomodações parisienses mais triviais.
São antes as bibliotecas, não as livrarias, que obviamente remetem ao bibliotecário cego de Babel, o ficcionista argentino Jorge Luis Borges, que as tematizou obsessivamente. Convém observar, no entanto, que, com a expansão seja de bibliotecas, seja de livrarias on-line, as fisicamente existentes tendem, de algum modo, a combinar ambas as funções, pois as livrarias que sobrevivem vêm se convertendo igualmente em espaços de leitura, discussão, de lançamento de obras novas, noites de autógrafo etc.
O que as livrarias têm a oferecer, assim, é não só a sensação concreta e tátil do livro em carne e osso (ou papel e tinta), mas o encontro de leitores uns com os outros e desses com os autores.
Quanto a esses, bom, cada qual quer ter seu espaço tanto nas livrarias quanto nas bibliotecas e adotá-las como albergue noturno, por menos confortável que pareça, talvez seja o bom começo de uma bela amizade.

