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Folha de S.Paulo – O homem que dorme em livrarias – 23/02/2006

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Folha de S.Paulo – O homem que dorme em livrarias – 23/02/2006
O homem que dorme em livrarias

Escritor canadense, que lançou livro nos EUA e no Reino Unido sobre os cinco meses em que “morou” na Shakespeare and Company, em Paris, repete a experiência em outras lojas

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

O jornalista e escritor canadense Jeremy Mercer, 35, arrumou um jeito novo de ganhar a vida. Anda pelo mundo dormindo em livrarias, escrevendo sobre a experiência e promovendo suas obras com novos “tours” por entre estantes de livros. Ele vem fazendo sucesso nos cadernos literários dos EUA e da Inglaterra com um livrinho simpático sobre os cinco meses em que morou na mais famosa livraria do mundo, a Shakespeare and Company, de Paris. Agora prepara um novo livro enquanto dorme em outra delas, a Atlantis, na ilha grega de Santorini.
A motivação para o périplo, além do marketing, lembra a do personagem do filme “Amarcord”, de Fellini. Durante um passeio de carro da família pelo campo, o tio demente desaparece. Procura de lá, procura de cá, encontram-no no alto da única árvore do descampado mediterrâneo. Vários “desce-daí-não-desço” depois, resolvem negociar com o aflito -e perguntar o que afinal lhe atormenta. “Eu quero uma mulher”, ele grita, balançando os galhos.
O livro que relata a vida de Mercer na Shakespeare and Co. foi lançado nos EUA no ano passado, com o autor percorrendo 23 livrarias em 44 dias. Chama-se “Time Was Soft There” (em tradução literal, “o tempo era macio por lá”). O título da versão britânica é “Books, Baguettes & Bedbugs” (livros, baguetes e percevejos). Recebeu elogios de jornais como o “Guardian” e o “Independent”.
A história começa em 1999, no Canadá. O escritor, que trabalhava na época como repórter policial para o jornal “Ottawa Citizen”, vinha de lançar um livro sobre os principais bandidos do país. “Acabei me envolvendo numa confusão com um sujeito em particular, especialista em assaltar cofres”, diz. “Ele pediu para eu não citar o seu nome no livro -e não o fiz no capítulo que tratava especificamente de seus assaltos. Mas, num capítulo final, em que dizia porque tinha escrito o livro, e no qual descrevia muitos dos criminosos como boas pessoas, registrei o seu nome.”
“Ele ficou bastante chateado, me ameaçou e invadiu o meu apartamento. Foi aí que me dei conta de que era um bom momento para ir embora”, diz.

Paris
Com US$ 3.000 no bolso, Mercer partiu para Paris. Um dia, com o dinheiro acabando, aceitou um convite da balconista da livraria Shakespeare & Co. para uma xícara de chá. Descobriu que poderia dormir de graça entre as estantes em troca de pequenos serviços diários e do compromisso de ler pelo menos um livro por dia.
“Li mais do que havia feito em toda a minha vida. Antes trabalhava como jornalista -com uma carga de 60 ou 70 horas por semana. Podia me considerar um felizardo se desse conta de dois ou três livros num mês.”
A estadia de “malucos” de todos os tipos -como os descreve o próprio Mercer- na livraria é incentivada pelo dono da loja, George Whitman. Muitos ajeitam seus sacos de dormir entre as estantes e são acordados pelos primeiros clientes da manhã.
A experiência do canadense, muito mais do que literária, durou de janeiro a maio de 2000, e está no livro. Mas a história não acaba aí, pois no fundo o que Mercer quer, enquanto lê e escreve, é o mesmo que o tio da família italiana de Fellini.
Questionado até quando pretende continuar nessa vida, lembra da mais recente namorada. “Meu último amor ficou em Marselha. Devo continuar na estrada, viajando por aí, escrevendo novos livros, até me apaixonar de novo.”
Depois embaralha tudo, falando sobre a outra paixão. “Livrarias são como namoradas. Você sempre gosta mais daquela com que você está agora”, ele diz, ao descrever a Atlantis, para ele a melhor livraria do mundo, uma empreitada de um coletivo de artistas europeus na Grécia.
“O que eu gosto nas livrarias é a sensação de comunidade que nelas encontro. Gosto dessa idéia de que, ao entrar numa delas, é como se você entrasse numa família excêntrica.” É do abrigo de sua nova “família” na Grécia -onde fica até setembro- que Mercer conta, pelo telefone, a história da sua desilusão amorosa.
O escritor conheceu Julie durante uma rodada de leitura de poesias num bar de Paris, em 2003. “Ela era uma das poucas pessoas ali que entendiam inglês. E tinha esses olhos enormes.” Seguiu a moça, uma pintora, até Marselha, no sul da França.
Daí, mais livros. “Ela conhecia tudo de literatura francesa, e me apresentou a novos autores.” Mas, como costuma acontecer, o romance acabou. “Ela odiava o fato de eu estar sempre pobre, sem dinheiro. E também não gostava que eu gastasse meu tempo… Bem, ela precisava de mais estabilidade”, ele explica. “Mas talvez o grande problema mesmo é que ela é de câncer, e eu sou de aquário”, brinca. “Preciso de uma menina de gêmeos, você conhece?”

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February 24th, 2006 at 2:29 am

Folha de S.Paulo – Comentário: Charme da Shakespeare and Company é a bagunça – 23/02/2006

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Folha de S.Paulo – Comentário: Charme da Shakespeare and Company é a bagunça – 23/02/2006
Charme da Shakespeare and Company é a bagunça

NELSON ASCHER
COLUNISTA DA FOLHA

A Shakespeare & Company de Paris que, fundada em 1951, vende principalmente livros em inglês, fica na região de St. Germain, na margem esquerda do Sena, diante da catedral de Notre-Dame, rodeada por pequenos restaurantes. Como seu vizinho que fui durante uns três anos, eu passava por ela diariamente.
A livraria já teve dias melhores e várias entre suas competidoras atuais, a Village Voice, também no Quartier Latin, ou a Galignani, na Rue de Rivoli (perto do Louvre), são melhores, mais organizadas, têm um atendimento digno do nome e estoques mais completos e/ou interessantes.
A Shakespeare, porém, tem a vantagem de ficar aberta até a meia-noite e de poder ser freqüentada até mesmo no 14 de Julho. Além disso, ela é também um sebo que merece ser visitado de quando em quando. Seu charme, para os que o apreciam, é a própria bagunça, o aperto, a confusão, sobretudo, de jovens norte-americanos se acotovelando dentro dela menos em busca de leitura que de informações e conversa em sua língua.
Que alguém se predisponha a dormir entre suas estantes (inclusive do ponto de vista de quem, como eu, tem a cama cercada de tomos ameaçadoramente exigindo leitura imediata), aponta menos para prazeres ou perversões livrescas (como aqueles ilustrados pelo caso do sinólogo Peter Kien, o protagonista de “Auto-de-Fé” de Elias Canetti, cuja experiência formativa havia sido a de passar na infância uma noite trancado dentro de uma livraria e que, adulto, orgulhava-se de ter a maior biblioteca da cidade) do que para o preço extorsivo de acomodações parisienses mais triviais.
São antes as bibliotecas, não as livrarias, que obviamente remetem ao bibliotecário cego de Babel, o ficcionista argentino Jorge Luis Borges, que as tematizou obsessivamente. Convém observar, no entanto, que, com a expansão seja de bibliotecas, seja de livrarias on-line, as fisicamente existentes tendem, de algum modo, a combinar ambas as funções, pois as livrarias que sobrevivem vêm se convertendo igualmente em espaços de leitura, discussão, de lançamento de obras novas, noites de autógrafo etc.
O que as livrarias têm a oferecer, assim, é não só a sensação concreta e tátil do livro em carne e osso (ou papel e tinta), mas o encontro de leitores uns com os outros e desses com os autores.
Quanto a esses, bom, cada qual quer ter seu espaço tanto nas livrarias quanto nas bibliotecas e adotá-las como albergue noturno, por menos confortável que pareça, talvez seja o bom começo de uma bela amizade.

Written by lu terceiro

February 24th, 2006 at 2:28 am

Nas estantes da cidade

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Matéria da Revista da Folha, 11/12/2005

Especialistas em literatura indicam, e a Revista confere 12 sebos bons para presentear quem gosta de ler

Nas estantes da cidade

[por Débora Yuri]

“Seu” Luiz, do Ornabi, no centro; Evandro, do Avalovara, em Pinheiros; Pedro, do Indústria Cultural, no viaduto Nove de Julho: rato de sebo que se preze é tão íntimo desses nomes como de Fernando Pessoa, Marcel Proust ou Fiódor Dostoiévski.

Três especialistas em literatura elegeram seus sebos favoritos em São Paulo, e a reportagem, em busca de um exemplar de “O Jogo da Amarelinha”, de Julio Cortázar –que sumiu das prateleiras das livrarias e das lojas on-line–, visitou mais de 15 deles, indicando a seguir 12. Embalada pelo Natal, essa espécie de mapa dos sebos cai bem para quem gosta de ler ou pretende dar um presente “cabeça” na noite do dia 24.

1 Banca da Letras/USP
A peregrinação pelos sebos de São Paulo começa na Cidade Universitária, na Faculdade de Letras da USP, no vãozinho ao ar livre que fica entre a Letras e a Filosofia. Ali é comum encontrar livreiros com suas barracas montadas, de segunda a sexta, mas todos ainda vivem à sombra de um.

“O grande sebo da minha vida acabou, era o “seu” Jaime, o maior livreiro da USP. Ele tinha uma banquinha na Letras e passava o dia todo discutindo literatura com a gente. Morreu há uns cinco anos. Nunca mais encontrei um sebo como aquele”, conta William Roberto Cereja, 48, professor e autor do recém-lançado “Ensino de Literatura” (editora Atual).
Ex-aluno da Letras, Cereja sente saudade de “seu” Jaime, assim como boa parte da comunidade uspiana. “Ele recebia professores da USP na casa dele, onde tinha milhares de livros. Os professores falavam, nas aulas: ‘Fale com o ’seu’ Jaime, ele arruma esse livro para você’. Era o cara que quebrava o galho de muitos estudantes.”

“Os melhores livreiros da USP estão na Faculdade de Letras e na Filosofia”, diz Celinha Nascimento, 43, coordenadora de literatura da Escola da Vila. Como universitários e livros são –ou, ao menos, se espera que sejam– indissociáveis, quem dá as cartas no local hoje é o casal Marcia Oliveira, 33, e Luiz César Goulart, 39, ex-aluno da Letras.

A banca não tem muita diversidade, mas encontra-se obras de Stendhal em francês, “Pensamento e Militância”, de Antonio Candido, e correspondências de Proust. A repórter procura “O Jogo da Amarelinha”, clássico do argentino Julio Cortázar. “Xiii, esse é duro encontrar. É fácil vender e difícil aparecer”, sentencia Marcia. A busca pela obra estava apenas começando…

Entrada da Faculdade de Letras da USP, na FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas), r. do Lago, 717, Cidade Universitária, sem telefone.

2 Sebo Dom Quixote
O tour continua no chamado “quarteirão dos sebos”, na avenida Pedroso de Morais, entre a Fnac e a Cardeal Arcoverde. “É engraçado porque, ao lado da superlivraria que é a Fnac, existe esse trechinho de Pinheiros, com seis ou sete sebos. Recomendo passar lá”, diz Celinha Nascimento.

Para quem gosta de garimpar estantes, trata-se mesmo de um pedaço imperdível. No Dom Quixote, há uma profusão de gibis, CDs e DVDs, além de livros de filosofia, antropologia, filosofia, teatro e crítica literária. O público vai de estudantes a políticos, passando por moradores da Vila Madalena e gente ligada a cinema, teatro e artes em geral. O sebo não tinha “O Jogo da Amarelinha”, mas a repórter pagou R$ 15 por um Proust em bom estado.

Av. Pedroso de Morais, 824, Pinheiros, tel. 3032-3001.

3 Sebo Avalovara
“Aqui não entra porcaria: não vendo livros de auto-ajuda, best-seller nem Paulo Coelho, só literatura, filosofia e política de alto nível”, vai logo avisando Evandro Afonso Ferreira, 60, escritor e dono do Avalovara. O nome do sebo é uma homenagem à obra homônima do escritor pernambucano Osman Lins.

A figura de Evandro e seus conhecimentos literários tornam a visita à loja uma verdadeira experiência, e ele não esconde sua “parcialidade”. “Este é o sebo mais inteligente de São Paulo e do Brasil. Quem quiser comprar aqui tem de ter o gosto do dono”, afirma, em tom sério.

Será? A repórter pergunta por expoentes da literatura beat. Evandro desdenha: “Os beatniks eram qualquer coisa”, mas mostra um exemplar de “On the Road”, clássico de Jack Kerouac. Em seguida, elogia o português Herberto Helder, autor do belíssimo “Os Passos em Volta”, e engata uma conversa com a repórter, também fã da obra. “Você leu? É uma obra-prima, é gigantesco! Ele começa assim: ‘Se eu quisesse, enlouquecia’…” Fala também com entusiasmo de António Lobo Antunes, “o melhor escritor do mundo hoje”, na sua opinião.

“Não entendo por que só citam [José] Saramago. Estou aqui para conversar sobre literatura com alunos de letras e amantes de bons livros. Vender é o de menos”, afirma Evandro. Se ele tinha “O Jogo da Amarelinha”? “Difícil, esse não pára na estante.”
Av. Pedroso de Morais, 809, Pinheiros, tel. 3815-7215.

4 Traças & Traços
Aberto há duas semanas na Pedroso, fica num sobrado charmoso e é comandado pela professora de história Luiza Tsuyama Cardoso, 61. O forte do sebo, além de literatura –incluindo obras em inglês, italiano e francês–, são ciências sociais, arquitetura, direito, turismo e ciências exatas. Nenhuma caixa de papelão guardava um exemplar do cobiçado “O Jogo da Amarelinha”.

Av. Pedroso de Morais, 785, Pinheiros, tel. 3518-8917.

5 Sebo Livro & Cia.
Quase na esquina da Teodoro Sampaio com a Henrique Schaumann, é um sebo pequeno, aberto há três anos, que passa quase despercebido no meio das lojas de móveis. “Este eu indico aos meus alunos. O dono faz um trabalho bem legal”, diz Eliane Robert Moraes, 54, professora de literatura da PUC-SP.
A reportagem procurou “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoiévski, “O Jogo da Amarelinha” e raridades do ítalo-americano John Fante, considerado o precursor dos beatniks. Saiu de mãos abanando.

R. Teodoro Sampaio, 1.233, Pinheiros, tel. 3061-1268.

6 O Belo Artístico
Se você é um pobre amante de literatura, no sentido literal do termo, este não é o seu lugar. No miolo dos Jardins, O Belo Artístico foi recomendado por Eliane Robert Moraes e é um sebo “diferenciado” –caro.

O forte são livros antigos e raros, com ênfase em literatura brasileira. Exemplares autografados por autores como Guimarães Rosa, Oswald de Andrade, Carlos Drummond, Lima Barreto e Jorge Amado podem custar R$ 2.500. O grosso do público é formado por empresários e colecionadores.

Aqui, nem era o caso de perguntar por uma edição barata do clássico do Cortázar para enfiar na mochila durante a próxima viagem.
R. Estados Unidos, 1.426, Jardins, tel. 3088-1581.

7 Canto das Letras
“Este sebo é delicioso, tem um café agradável”, elogia Celinha Nascimento, coordenadora de literatura da Escola da Vila. Há três anos em atividade, fica quase na esquina da rua Augusta com a alameda Franca. Seu café será reativado em janeiro, junto com a inauguração do espaçoso jardim, que fica nos fundos da casa.
CDs, DVDs, discos em vinil, arte, fotografia e literatura brasileira e estrangeira são o destaque. A repórter pergunta por Cortázar, Kerouac e Fante. “Pô, pede alguma coisa que eu tenho!”, diz um dos donos, Jefferson Moreira, 20. Dostoiévski ele tem, uma versão puída de “Os Irmãos Karamazov” e “O Idiota”, elogiado pelo vendedor.

“O nosso forte é tudo”, diz Jefferson. “Não tem essa coisa de ‘Aqui não entra porcaria’. O que é porcaria para mim pode não ser para você”, justifica.

R. Augusta, 2.244, Jardins, tel. 3081-2120.

8 Sebo Praia dos Livros
“Ler ou não ser”, diz um adesivo colado no caixa deste sebo, próximo ao shopping Paulista. Mesas, sofá, cafeteria e um cibercafé ajudam o freqüentador a saborear com calma seus autores favoritos.

“O legal de um sebo é quando o vendedor entende do assunto e te ajuda. É o caso deste”, diz Celinha Nascimento. A dona, Daniele Helfstein, 31, até senta para tomar uma cerveja no balcão do café com os clientes e discutir literatura.

“Recebo todo tipo de público, até o ‘novo leitor’, aquele que desce do metrô, entra para tomar um guaraná e de repente se interessa por livros”, conta. Colecionadores e turistas estrangeiros hospedados na região da avenida Paulista também dão as caras.
A busca por “O Jogo da Amarelinha” continua, mas a reportagem, mais uma vez, não acha a obra. Solícita, a dona anota telefones. “Vou achar para você, é um desafio”, diz.

Av. Bernardino de Campos, 319/331, Paraíso, tel. 3266-6917.

9 Sebo do Messias
A peregrinação chega à região central da cidade, onde o Sebo do Messias é referência. São quatro unidades, e a da praça João Mendes existe há 35 anos. “É famoso, tem muita coisa, mas acho o atendimento impessoal”, diz o professor e escritor William Roberto Cereja. Celinha Nascimento recomenda, embora também faça ressalvas: “O Messias tem muitos livros, mas é uma bagunça. Você tem de ir com tempo de sobra”.

Na filial da Brigadeiro Luís Antônio, há uma cafeteria e boa variedade de fitas VHS. Os livros são vendidos a partir de R$ 0,50, e “O Jogo da Amarelinha”, novamente, estava em falta…
Av. Brig. Luís Antônio, 269, Bela Vista, tel. 3107-4809.

10 Indústria Cultural
Uma casinha difícil de ser notada, sem letreiros: foi preciso ajuda de um vendedor de banca de jornal para achar o “264″, nome antigo do Indústria Cultural, ponto famoso entre os ratos de sebos. Indicado por Celinha Nascimento, é também um dos favoritos de Eliane Robert Moraes, da PUC-SP: “Eles têm autores surrealistas franceses, muita coisa de modernismo, é um local excelente”.
O dono, Pedro Lopes, 35, é um apaixonado por “literatura boa”. “Larguei a escola na 6ª série e fui ler o que queria. Viajei pelo Brasil inteiro, América do Sul, metade da Europa. Montei esse sebo há dez anos”, conta.

Pedro guarda uma série de “paradas boas” na apertada casa de dois andares, com livros e discos espalhados pelo chão. Politicamente incorreto assumido, ele tem uma teoria sobre a qualidade dos sebos: “Sebo bom é aquele em que os caras cobram R$ 20 por livro que vale R$ 200 e vice-versa”, brinca, lembrando-se de quando entrou num e perguntou: “Você tem ‘Casa Grande & Senzala’?”. “O vendedor respondeu: ‘Não tenho nem um nem outro’”, diverte-se.

O Indústria Cultural tem uma estante inteira dedicada aos beats, incluindo uma caixa com Kerouac declamando poemas –faltaram apenas “O Primeiro Terço”, de Neal Cassady (o herói de “On the Road”), e “The Road to Los Angeles”, de John Fante.

Alívio e, a essas alturas do campeonato, surpresa: a repórter finalmente encontra “O Jogo da Amarelinha”, por R$ 50. Estimulada pelo livreiro, compra também “Fome”, de Knut Hamsun (”Esse é o cara que inspirou o Fante, você não leu ‘Sonhos de Bunker Hill’?”), e “Reações Psicóticas”, de Lester Bangs, o maior crítico de rock da história.

Saldo final: R$ 80 a menos na carteira e a certeza de que, se seu saldo não estiver positivo, melhor ficar longe desse livreiro.
Viaduto Nove de Julho, 184, Consolação, tel. 3255-3270.

11 Sebo do Brandão
Subindo a escadinha de um prédio antigo do centro, chega-se ao Sebo do Brandão, cuja matriz existe há 53 anos em Recife (PE). Recomendada por Celinha Nascimento, a filial de São Paulo está aberta há mais de duas décadas e oferece cerca de 100 mil títulos.

“Os nossos clientes, antigos e novos, podem fazer a oferta. A decisão é da firma”, avisa um cartaz colado na parede. O público é eclético: reúne dos “mais carentes” a juízes, advogados, universitários e colecionadores.

R. Xavier de Toledo, 234, centro, tel. 3214-3325.

12 Ornabi (Organizadora Nacional de Bibliotecas)
Comandado há 60 anos por Luiz Oliveira Dias, 87, o Ornabi é uma instituição paulistana quando se fala de sebos. “É o melhor de São Paulo, mas também o mais caro. O dono sabe tudo de literatura, entende o valor que cada obra tem”, diz Celinha Nascimento. Eliane Robert Moraes é outra fã e freqüentadora: “Já encontrei lá coisas raríssimas, inclusive uma edição fora do comércio do Marquês de Sade”.
O Ornabi estréia seu novo endereço, no segundo andar de um prédio na Quintino Bocaiúva, em duas semanas. As paredes já estão enfeitadas com quadros de Fernando Pessoa, o maior poeta português e, talvez, do mundo, e seus mais importantes heterônimos, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.
R. Quintino Bocaiúva, 176, sala 9, tel. 3105-1391.

Written by lu terceiro

December 12th, 2005 at 12:10 am

ARCOweb – Fernando Manzone – Livraria El Ateneo, Buenos Aires, Argentina

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Ah! Se já não bastasse a Papelera Palermo, em Buenos Aires, ainda existe esta maravilha em forma de livraria!
ARCOweb – Fernando Manzone – Livraria El Ateneo, Buenos Aires, Argentina

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Written by lu terceiro

December 4th, 2005 at 11:57 pm